A conversa sobre o futuro do 4º Distrito em Porto Alegre vem andando já faz um tempo (veja aqui, aqui e aqui). Pra quem não sabe, o 4º Distrito é uma antiga região industrial da cidade formada pelos bairros Floresta, São Geraldo, Navegantes, Anchieta, São João, IAPI, Passo D'Areia, Humaitá e Farrapos, que foi gradualmente abandonada na segunda metade do século passado. O início da saída das empresas já começou após a grande enchente de 1941, pelo medo de operar em uma zona de risco. Com o crescimento da cidade e a gradual desindustrialização da área os terrenos ficaram caros para o uso industrial, e por volta da década de 70 as empresas realmente começaram a emigrar para a Região Metropolitana e outras cidades.
Vista do 4º Distrito de Porto Alegre
A recuperação do bairro é vista por muitos como um dos papéis essenciais de planejamento do Município, algo que os cidadãos não teriam condições de fazer por conta própria e que simplesmente não existiria interesse econômico para o setor privado ocupar uma área industrial. No entanto, pesquisando sobre o histórico de Porto Alegre, descobri que a região - justamente por causa do planejamento - ficou durante décadas restrito ao uso industrial (provavelmente durante o 1º Plano Diretor de Desenvolvimento Urbano, que vigorou de 79 a 99), mesmo não tendo mais vocação para isso. A restrição, além de outras como limites de alturas, densidades e vagas mínimas de garagem, afastaram qualquer tipo de investimento, gradualmente deixando os galpões abandonados e gerando a cada ano um risco ainda maior para uma ação de empreendedores imobiliários. Por estes motivos argumentei, já por algum tempo em conversas informais, Facebook e grupos de e-mails, que seria simplesmente removendo as barreiras ao desenvolvimento veremos a gradual recuperação do 4º Distrito.
Felizmente acabo de encontrar uma forte aliada a esta tese, uma das pensadoras mais influentes do século passado e minha urbanista predileta: Jane Jacobs. Coloco abaixo a tradução de uma entrevista que ela deu à revista Reason em junho de 2001, justamente sobre a transformação e áreas industriais degradadas:
Reason: O que as pessoas que gerenciam as cidades tem que saber agora para tornar as cidades em lugares mais habitáveis, mais interessantes? Seria remover algumas das coisas que eles fizeram nos últimos 50 anos, ou simplesmente tirar a mão completamente?
Jacobs: É muito menos uma questão de remover coisas que adicionar coisas, eu acho. Por exemplo, aqui em Toronto existiam duas áreas do Centro que estavam morrendo. Elas estavam muito bem localizadas próximas ao centro mas eram construções industriais antigas que estavam esvaziando. A manufatura estava indo para onde tinha mais espaço e onde não era tão caro. Havia vários pequenos incorporadores que viam que estes prédios antigos e simpáticos era ideais para serem convertidos em apartamentos. Eram, na maioria, lofts, e você sabe o quão popular eles se tornaram. Mas eles estavam barrados de fazer qualquer coisa por que o zoneamento dizia que deveria ser industrial. Então você troca aquele zoneamento e permite uso residencial.
Reason: Mas você não está então removendo um impedimento? Algumas pessoas dizem que zoneamento é o grande problema.
Jacobs: Espera, eu não terminei. Não ajudou mudar isso porque, de novo, eram tantas restrições que vinham juntas. Existiam regras e regulamentações sobre moradia - principalmente vagas de garagem. E a ocupação dos terrenos era alta, e você não podia fazer subsolos debaixo destes lindos prédios antigos. Você não podia satisfazer os requerimentos de garagem sem destruir o que era realmente interessante nas áreas, além de tornar tudo muito caro. Então não importava o que acontecesse, eles estavam bloqueados.
Tínhamos uma prefeita muito inteligente na época, e ela escutava tudo que eles tinham a dizer. E ela queria remover aqueles impedimentos. Ela falava com todo mundo que tinha algum interesse na área e eles concordaram que aqueles edifícios deviam ter um novo uso. Mas eles estavam todos tão frustrados ao pensar "como tornar isso prático?".
Bom, você é inteligente. Você já pulou para a conclusão de o que torna isso prático: você remove os impedimentos. O trabalho mais difícil da prefeita era reeducar o departamento de planejamento, mas ela foi adiante. Mas tinha uma regra muito importante para adicionar: nenhum dos bons edifícios antigos deveria ser destruído. Isso era para prevenir desperdício ambiental e estético. Fora isso, tirando os códigos de incêndio e segurança, que se aplicam à todas edificações, praticamente todas as regulações antigas foram removidas.
Reason: E o que aconteceu?
Jacobs: É mágico, é maravilhoso, a velocidade que essas áreas tem aflorado e voltando a ter vida.
Em relação à essa sugestão da Jacobs nosso planejamento tomou decisões um tanto contraditórias: o atual Plano Diretor permite usos mistos na região, densidades mais altas que a média e um limite de altura de 52m, um dos mais altos da cidade. No entanto, a prefeitura manteve as vagas mínimas de garagem e continuou a incentivar o uso o carro, investindo milhões em obras viárias como a duplicação da Av. Voluntários da Pátria, um outro subsídio artificial à infraestrutura para carros e desincentivo ao pedestre.
É interessante saber também que toda região, na sua origem, tinha mistura de usos com instalações industriais, ocupação residencial e presença de comércio varejista, sendo um dos principais fatores que colaborou para o desenvolvimento do local. Tanto empreendedores como funcionários das fábricas preferiam morar perto do seu trabalho, evitando grandes deslocamentos para chegar em zonas industriais afastadas. Conta arquiteta e professora da PUCRS Leila Mattar:
“Durante algum tempo, por sua estrutura e condição de autossuficiência no atendimento às necessidades de seus moradores, bem como aos da cidade, a região ficou conhecida como ‘bairro-cidade’”
Ou seja, o conceito de bairro-cidade que urbanistas hoje tentam planejar emergiu naturalmente a partir das demandas do mercado imobiliário da época. Ao meu ver é este meio ambiente que deveria ser criado para que surjam ofertas inovadoras para as demandas atuais.
SoHo: ninguém planejou sua reocupação pela vanguarda
Justamente em relação à essas demandas, grupos de trabalho das mais diversas esferas tem se encontrado para tentar definir a priori qual deve ser a nova vocação do bairro na cidade. Mas na prática não há como ter esta antevisão: a verdadeira vocação de um bairro é um resultado inesperado, imprevisível, uma ação coletiva e colaborativa entre milhares de agentes. Se pensarmos na história do próprio bairro, ninguém se reuniu para definir que o 4º Distrito de Porto Alegre seria um bairro industrial no século 19, quando as indústrias começavam a liderar o desenvolvimento do estado a partir daquela região. Em Nova Iorque, uma das principais cidades de estudo da Jacobs, também não houveram reuniões para definir que as indústrias têxteis que saíram do SoHo no início do século passado fossem ocupadas por artistas, eventualmente se tornando o centro da vanguarda artística americana. Defendo a mesma forma de renovação para o 4º Distrito: espontânea e descentralizada, onde cada cidadão, seja morador, um futuro morador, um entusiasta ou um empreendedor, possa ser um agente de mudança. Com poucas restrições, não sabemos o que esperar, mas nas palavras da nossa querida Jane Jacobs: será "mágico, maravilhoso".
Centro: odiado por muitos, amado por poucos, onde muitos trabalham e poucos moram, onde sujeira, pixações e propagandas ilegais escondem uma cidade perdida. Por que saímos do Centro, e quando voltaremos?
Essa mesma falência se repete nas principais metrópoles brasileiras: No Centro do Rio de Janeiro, 39 edifícios já apresentam risco de desabamento. Em Porto Alegre, sejam casarões na Duque de Caxias ou prédios altos na Praça XV, não faltam exemplos de construções abandonadas no Centro Histórico. São múltiplos os motivos que levaram as pessoas a saírem, que se retroalimentam c degradação espacial: saída de moradores de rendas mais altas, os habitantes e frequentadores do "passado romântico" desses bairros em busca de lares menos barulhentos e mais espaçosos (subsidiados pela infraestrutura voltada para automóveis e regulamentações anti-densidade e anti-usos mistos em bairros selecionados); degradação dos imóveis com o tempo, aumentando gradualmente o custo de manutenção e adaptação à tecnologias modernas; aluguéis e condomínios altos demais para moradores de baixa renda; aumento de taxas de criminalidade (principalmente furtos de celulares e carteiras). No caso do Rio de Janeiro, uma das causas foi uma decisão dos "técnicos", que proibiram a moradia em boa parte do Centro por decreto de 1974 até 1994.
Mas mesmo com os preços baixos, o mercado de construção civil age com cautela e lentidão para reinvestir na área. Por que a inércia?
Como primeiro motivo é de se notar que vários dos prédios abandonados são do próprio estado, sem perspectivas de investimento privado. Ao invés de tentar criar ou expandir órgãos apenas como justificativa para ocupá-los, uma alternativa para estes edifícios seria leiloá-los abertamente, arrecadando o máximo possível para o poder público e reinvestindo na sociedade e, ao mesmo tempo, incentivando o comprador a tomar uma decisão responsável com o patrimônio adquirido.
Logo em seguida estão os prédios tombados, construções legalmente protegidas por serem consideradas parte do patrimônio histórico da cidade, estado, país ou mundo. Entretanto, como já comentei em post anterior, o tombamento de um edifício normalmente é um tiro que sai pela culatra. Vários edifícios são largados às moscas justamente pelas barreiras a adaptação e pelos altos custos de manutenção exigidos. As regras procuram preservar a história mas infelizmente criam resultados opostos. É possível considerar ainda que alguns destes edifícios, pelo número de restrições estabelecidas pelo tombamento, são mais públicos do que privados, já que o direito de propriedade sobre o bem é muito fraco.
Assim como os tombamentos, a cobrança do IPTU também é uma política que tem grandes chances de surtar efeitos justamente contrários aos que foram propostos, sendo no caso evitar a ociosidade de terrenos. O que acontece basicamente são dívidas milionárias de IPTU atrelados a esses imóveis, na maioria das vezes de proprietários que perderiam tudo caso tivessem que arcar com os custos e que ao mesmo tempo afugentam construtoras a comprar as propriedades já que teriam que quitar a dívida para empreender um projeto sério. Segundo o site Edifícios Abandonados, alguns exemplos no centro de São Paulo, como os edifícios Prestes Maia e Mauá, ultrapassam R$2 milhões a pagar. Uma alternativa para este problema seria descontá-los do IPTU como um incentivo à sua reocupação, colocando-o novamente atrativo para investidores, o que parece ter acontecido no caso do prédio da antiga Companhia Nacional de Tecidos, em São Paulo. A regra vigente de desapropriação sob pagamento de títulos de dívida
pública acaba sendo pior já que coloca o destino da propriedade nas mãos de
grupos políticos, muitas vezes dando continuidade ao abandono ou tendo seu uso
mal alocado, já que decisões públicas tem poucos incentivos para serem
eficazes.
Por
fim, há alguns edifícios que já estão nas mãos de investidores privados, mas
que esperam o momento certo para reformá-los. Sim, esta é a chamada
"especulação imobiliária", mal vista porém incompreendida por maioria
das pessoas, e no entanto provavelmente uma das alternativas mais realistas
para reocupar os centros. A lógica é simples: se estes investidores realizarem
as obras muito cedo poucos compradores podem aparecer, que além de gerar uma
grande perda econômica os edifícios continuarão vazios. Por outro lado, se
demorarem demais o custo do investimento (dinheiro que poderia render juros em
uma aconta bancária) cresce e pressiona o investidor a realizar o projeto. Ele
tem, assim, bons incentivos para identificar quais são as maiores demandas e
quando será o momento perfeito de agir.
Apesar de lento, é este caminho que fez a Zona Central de São Paulo ser a região que mais cresceu nos últimos 10 anos, revertendo o cenário dos 30 anos anteriores. Poucos sabem, mas ela ganhou neste período 63 mil habitantes, representando um aumento de 13,3%. As reformas são graduais, primeiro por aqueles atraídos aos custos baixos e à proximidade ao trabalho, e assim 60 mil metros quadrados do Centro de São Paulo já foram reformados nos últimos anos, com uma tendência parece continuar. Porto Alegre também vê este movimento, que hoje reverte a tendência de emigração que durou de 1980 a 2005, onde o Centro Histórico perdeu um terço de sua população.
Mas investidores ainda enfrentam outros custos e riscos para seguirem em frente, normalmente gerados pelos planejadores municipais: além das dívidas de IPTU, ainda há regras que como a obrigação de criação de vagas de garagem, a limitação do potencial construtivo e um períodos intermináveis para aprovação de projetos, aumentando o risco dos projetos e o custo do m² construído. Qualquer edificação tombada ainda possui uma "área de influência", que restringe o que é construído no seu entorno, e por serem antigos nossos centros estão repletos destas áreas de influência.
A questão da segurança pública também é uma variável não controlada pela iniciativa privada, principalmente no tangente ao violento tráfico de drogas - um desafio importante para a reurbanização do Centro no caso de São Paulo, já que é lá que está instalada a chamada "Cracolândia". Como já escreveu o urbanista Stephen Smith, "a guerra às drogas é uma guerra às cidades", e a regularização das drogas proibidas, desconectando-as das atividades criminais, deve ser seriamente avaliada a nível nacional.
Mas as prefeituras não teriam parte do mérito nesta reocupação, já que fazem investimentos em grandes projetos e na recuperação deste patrimônio tombado? Em Porto Alegre, o programa Monumenta pretende investir R$21 milhões, já o Procentro paulistano, R$184 milhões. Mas analisando a situação como um todo, fica clara a atitude paradoxal dos políticos, criando dificuldades em uma ponta para mostrar serviço em outra. Assim como os projetos a nível federal, megaprojetos empreendidos e financiados pelo estado dão mais votos, já que eleitores "vêem para onde está indo o dinheiro", diferente de políticas que gradualmente permitem um desenvolvimento natural da região. Ainda, as empresas que participam das empreitadas estatais, recebendo empréstimos especiais e garantias politicas, acabam não correndo o risco que deveriam, servindo apenas como um braço articulador mais eficiente de uma política pública gerada por interesses políticos.
Projeto Cais Mauá, em Porto Alegre. Bom, mas não pra todos
Desconsiderando demandas reais de mercado, estes programas esquecem da alternativa de apenas reduzir os impostos e retirar regras que praticamente proibem a ocupação dos centros e levam ao encarecimento da construção, permitindo que cidadãos então independentes escolham o futuro do Centro consumindo projetos de ONGs e construtoras de forma responsável. Os programas estatais para reviverem áreas centrais mortas, por mais que possam parecer causas nobres, utilizam dinheiro público para tal e, na prática, se tornam uma redistribuição de renda inversa. Com um direcionamento artificial a certas causas há aumento também artificial no preço dos imóveis, sem que haja uma ocupação de moradores de baixa renda, que continuarão isolados nas periferias. Estes, ainda, provavelmente não se deslocarão por distâncias tão grandes até os centros para usufruir das atividades culturais "para todos", e possivelmente nem se interessarão pela característica da artes expostas. Se sabe que os maiores frequentadores da Pinacoteca de São Paulo, do MARGS em Porto Alegre, ou pessoas que tem a revitalização do patrimônio histórico da cidade como uma prioridade financeira não são os pobres da periferia, mas sim as elites das zonas centrais. Blogs e sites sobre movimentos sociais que lutam pela ocupação popular dos dos centros abandonados mostram claramente seu descontentamento com o caminho tomado pelos projetos de reurbanização de Porto Alegre, que não permitem uma gentrificação natural. Críticos da gentrificação, este processo de retomada das áreas antigas e abandonadas, dizem que ela "expulsa" os moradores pobres de suas casas com a valorização dos imóveis. Mas se eles possuem direito de propriedade e direito a negociar ou recusar as propostas de compra de seu imóvel não há expulsão mas apenas uma troca voluntária de interesses.
Mesmo com todos os problemas, fico otimista pelos Centros como espaço construído: com o tempo, deixarão de ser abandonados e voltarão a ter a vitalidade das gerações que passaram. No entanto, será um processo lento e distorcido, onde politicagem e falsos interesses serão manifestados, onde muitos serão injustiçados e onde as dores dos prejudicados ficarão escondidas sob as fachadas de uma cidade aparentemente renovada.
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Downtown: hated by many, loved by some, where many work and few live, where pollution, bad graffiti and illegal advertising hide a lost city. Why did we leave the center of our cities, and when are we going back?
In São Paulo, from 1970 to 2000, the main neighborhoods of the "Zona Central" lost nearly half their population, becoming a commercial area, abandoned at night lacking people to appropriate, or take care of, the public spaces. It is estimated that in the paulista Downtown, a region fully equiped with infrastructure, public services intense commerce during the day, there are more than 200 abandoned buildings in a 1,5mi radius.
This same negligence repeats itself in Brazil's largest metropolises: in Rio's Centro, 39 buildings are public hazards in risk of falling. In Porto Alegre, from old mansions on Av. Duque de Caxias or tall buildings at Praça XV, it's not hard to find derelict buildings at the Centro Histórico neighborhood. There are multiple causes of why people left these properties, that act upon themselves causing spatial abaondonement: fleeding rich residents, the inhabitants of Downtown's "romantic past" in search of quieter neihborhoods and bigger lawns (subsidized by auto-oriented infrastructure, anti-density and anti-mixed use regulations in selected zones); degradation of buildings with time, gradually increasing costs for maintenance and adaptation to new technologies; high rents for low wage earners; increase of crime levels (wallets and phones are regularly stolen). In case of Rio de Janeiro, one of the causes was by a "technical" decision, prohibiting residential use in most of the downtown area from 1974 to 1994.
But even with low prices, the building market acts cautiously and slowly to reinvest in the area. Why is it afraid?
At first one should notice that many of the abandoned buildings we find in these areas are state property, with no chances of receiving private investment. Instead of creating or expanding new agencies just as a reason to occupy them, one alternative for these buildings would be to openly auction them out, with the public sector receiving the largest sum possible to reinvest in society and, at the same time, incentivizing buyers to take responsible decisions with his new property.
Next we see landmarked buildings, which are legally protected from alterations while considered a significant meaning for the city, state, country or even world. However, as I have already argued, landmarking buildings usually gives us bad results. Many buildings are abandoned because of the high maintenance costs demanded and legal restrictions for adaptation and retrofitting. Rules aim at saving history but end up creating opposite effects. One can even consider that some of these buildings are more public than private, as there are an astonishingly high number of restrictions on property.
Building taxes, the brazilian IPTU, which has also been covered in this blog, also ends up damaging downtowns. Just as landmarking, taxing buildings is also a policy that has great chances to surge opposite effects from what it was intended to, in this case avoiding lots from being abandoned. There are several buildings with millionaire tax debts attached to them, in most cases so high that the owners would lose everything if they had to pay them out, which also scares building companies from buying them as they would have to pay the debt in order to go ahead with a serious project. According to the website Edifícios Abandonados ("Abandoned Buildings"), a few examples in downtown São Paulo such as the Prestes Maia and the Mauá buildings have more than R$2 million payable. Today's rule of using eminent domain and paying the owners in public debt securities has worse outcomes as it puts the buildings fate in the hands of political groups, which many times leave the building abandoned or is misallocated as public decisions have little incentives to be effective.
At last, there are a few buildings which are already in the hands of private investors, which wait for the right moment to refurbish them. Yes, this is the so-called "speculation", viewed as "evil" or plainly misunderstood by most people, but which can be one of the most realistic options to occupy downtowns. The logic is simple: if these investors execute their projects too soon few buyers may appear, keeping the building empty while generating a huge economic loss. In the other hand, if they wait for too long the cost of the investment (money that could be earning interest in a bank account) grows and pressures the investor to go ahead with the project. He has, therefore, good incentives to identify what are the greatest demands and when is the perfect moment to act.
Despite being slow, this is the route that made São Paulo's Zona Central the region that grew the most in the last 10 years, reversing the scenario of the previous 30 years. Few are aware of this, but it gained in this period 63,000 new residents, an increase of 13%. Refurbishments are gradual, first by those attracted by low rents and proximity to work, and 60,000 sqm have already been transformed this way in the last few years, with a tendency that seems to continue. Porto Alegre has the same drive, which today reverses the emigration that last from 1980 to 2005, where the Centro Histórico lost a third of its population. But investors still face other risks and costs to go ahead, usually generated by municipal planners: besides IPTU debts, there are still rules such as mandatory parking spaces for new buildings, FAR (Floor Area Ratio) limitations and endless approval stages to approve any given project, increasing investment risks and, therefore, floor prices. Landmarked buildings even have an "area of influence", restricting what is built around it, and as our downtowns are old they are filled with these areas of influence. Public safety is also a variable uncontrolled by private investors, even less when issuing the subject of violent drug trade - an important challenge in the case of downtown São Paulo, as it is home of Cracolândia ("Crackland"). As urbanist Stephen Smith wrote, "the war on drugs is a war on cities", and the regulation of prohibited drugs, disconnecting them from criminal activity, should be seriously evaluated at national level.
But don't City Halls have a part in this re-occupation, as they are making large investments in huge projects and saving landmarked buildings? In Porto Alegre, the Monumenta program promises to invest R$21 million, the paulistano Procentro, R$184 million. But analyzing the situation as a whole one clearly sees a paradoxical attitude from politicians, creating difficulties in one end to show service in another. As in federal level projects, megaprojects undertaken and financed by the state get more votes, as voters "see where the money is going", instead of policies that gradually allow a natural development of a certain region. Still, companies participating in the state-driven goal, receiving special loans and political guarantees, end up market-risk-free, working only as an efficient executor of a public policy driven by political interests.
Se sabe que os maiores frequentadores da Pinacoteca de São Paulo, do MARGS em Porto Alegre, ou pessoas que tem a revitalização do patrimônio histórico da cidade como uma prioridade financeira não são os pobres da periferia, mas sim as elites das zonas centrais.
Disregarding real market demands, these programs forget the alternative of merely reducing taxes and removing rules that nearly prohibit occupying downtowns and lead to an increase in building prices, allowing then independent citizens to choose their own future for Downtown consuming projects by NGOs and building companies in a responsible way. State programs to revive dead central areas, however much it may seem as a noble cause, use public funding to do so and, in practice, become a reverse redistribution program. Artificially directing funds to certain causes there is also an artificial increase in the prices of buildings, with no occupation by low-wage residents, who will remain isolated in the periferias, the cities' outer areas. Still, these people probably displace themselves dozens of miles to enjoy the cultural activities created "to all", and possibly won't even be interested in the art being exibited. It is known that the largest public inside São Paulo's Pinacoteca or Porto Alegre's MARGS, or people who have the revitilization of the heritage of a city as a financial priority aren't the poor in the periferias, but the central zone elites. Blogs and sites by social movements fighting for a popular occupation of abandoned downtowns clearly show their discontent with the path taken with Porto Alegre's reurbanization project, which don't allow for a natural gentrification. Critics of gentrification, this process of retaking old abandoned areas, say that it "expells" poor dwellers from their homes with the increasing prices of their property. But if they have property rights and the right to negotiate or refuse buying proposals of their realty there isn't expulsion, just a voluntary exchange of interests. Even with all problems involved, I'm optimistic for brazilian downtowns as a built environment: with time they will cease to be abandoned and will come back to having the vitality of past generations. Nevertheless, it will be a slow and distorted process, where political interests and fake demands will be manifested, where many will be wronged and where losers will be forgotten and hidden behind the facades of an apparently renovated city.
Há poucos meses Porto Alegre recebeu dois novos projetos, o Complex e o Club688. Ambos empreendimentos da SlashSlash, produtora do MECA Festival, têm implicações urbanas positivas para a cidade, normalmente criticada por não ter grandes atrativos de entretenimento.
Espaço Público
Quando aqui falo espaço público o faço em um conceito urbanístico, e não político ou econômico: é um espaço onde qualquer pessoa tem acesso livre e que também pode se tornar um importante ponto de encontro e convívio de uma sociedade. Lojas podem ser descritas como públicas, apesar de serem de origem privada. Praças e parques construídas com investimento privado, já citadas neste blog aqui e aqui, também seriam referências de espaços públicos.
Assim, o Complex é um espaço difícil de conceituar. Não é uma praça, não é um restaurante, não é uma loja e não é um bar, mas é um pouco de cada uma dessas coisas. O que marca a atmosfera do lugar são as duas pistas de skate, um quadribanks e um snake, que dividem a vista do horizonte com a cidade, já que o terreno se encontra no topo de um morro. A área coberta envolve o espaço aberto, com todos espaços interligados e acessíveis. O usuário pode se sentar ao bar, em alguma das mesas do restaurante, visitar a loja ou até mesmo ficar encostado ao lado das pistas, acompanhando a atuação dos skatistas. Aberto manhã, tarde e noite, o Complex tem acesso controlado, mas é gratuito e não discrimina, tendo frequentadores das mais variadas classes sociais. Estas interagem principalmente através do interesse comum pelo skate, atividade que há não muito tempo deixou ser marginalizada e se tornou um esporte respeitado. Este espaço multi-uso pode ser classificado dentro de um conceito de praça pública criada através do empreendedorismo, já que possui praticamente todos os elementos para tal e tendo se tornado um importante espaço de interação na cidade. A ideia de que um empreendedor privado poderia criar tal estabelecimento parecia para muitos utópico e inviável, mas na prática o Complex bombou.
Gentrificação
A palavra acima é desconhecida por muitos. Existem várias teorias que se aprofundam no estudo de gentrificação, mas ela quer dizer basicamente o fenômeno em que ocorre uma grande migração de moradores para reabitar uma área urbana degradada. Um dos exemplos mais usados para tal seria o nascimento de o que hoje conhecemos como SoHo, em Manhattan, que até o final da década de 70 era uma zona industrial abandonada e perigosa, que foi então lentamente ocupada por estúdios de artistas e pequenos empreendedores. Com a migração desse grupo culturalmente influente e que também atraía consumidores da arte e dos serviços, o bairro hoje é vibrante e tem algumas das propriedades mais cobiçadas da ilha, sem contar as lojas e restaurantes dos mais variados tipos, desde grifes caras até o comércio de ambulantes.
Antevisão é uma das maiores qualidades de um empreendedor, e para abrir um negócio no Centro Histórico de Porto Alegre, um bairro que apesar de ser movimentado durante o dia é encarado com hostilidade por maioria dos moradores da cidade - principalmente durante a noite, quando fica deserto - é um risco enorme para o sucesso de uma casa noturna como a Club688. Gabriel Rezende, um dos sócios da SlashSlash, explica que durante seis meses ele vasculhou o bairro a pé para achar o terreno ideal para a abertura da boate. As vias permitem entrada e saída fácil do Centro, que tem um emaranhado de ruas de mão única, já existia um estacionamento em frente e na cobertura se tem uma vista para o Guaíba, o lago esquecido pelos portoalegrenses.
Pequenas ações podem desencadear grandes mudanças, e é assim que eu vejo a abertura da Club688 no Centro de onde eu cresci. A casa toca desde rock a música eletrônica, passando por indie e pop, atraindo gente de todo tipo. Contribuindo fortemente para um cenário que agrega tribos underground e pop, (que também poderia ser dito do Complex) já abre sendo frequentada pelos culturalmente influentes da cidade, assim como aqueles que curaram a doença urbana do SoHo. Você pode pensar: "Vamos lá, é só uma boate", mas são justamente nessas pequenas atividades que urbanistas começaram a prestar atenção após a análise feita pela Jane Jacobs sobre o que dá vida à grandes cidades, registrado no célebre "Morte e Vida das Grandes Cidades Americanas", criticando a visão de que cidades crescem somente a partir de grandes empreendimentos. Assim, pode-se dizer que ambos estabelecimentos criados pela SlashSlash são verdadeiros trendsetters para a cidade, já que abrem o caminho para que outros empreendedores possam continuar uma possível onda de transformação urbana e cultural.
Porém, o processo de empreender não é fácil e muitas vezes falha se não existe um ambiente propício para que isso aconteça. Tanto o Complex quanto o Club688 quase deixaram de existir devido às regulações hiperrestritivas criadas pelos inúmeros órgãos da Prefeitura de Porto Alegre que devem ser visitados para aprovar novas obras (desde Registro de Imóveis à SMAM, SMOV, SPMA, etc.) e do tempo e incerteza de todo processo de aprovação, provocando custos enormes para a operação. Urbanistas subestimam a capacidade de empreendedores em criarem equipamentos e espaços interessantes para a cidade ou até, pior ainda, mantém o dogma de que eles só querem tirar proveito do investimento público para forrarem o bolso, justificando ainda mais barreiras de entrada no mercado arquitetônico. O que não se entende é que as coisas funcionam justamente da forma contrária: a regulação é tão restritiva que impede novas ideias e conceitos florescerem, fazendo com que cidades com grande potencial como Porto Alegre se tornem monótonas e alvo de reclamações de seus moradores. Nesse ambiente normalmente surgem corporações que não empreendem nem inovam, mas que fazem acordos (muitas vezes de forma corrupta) com os burocratas para construir, o que gera os monstros e as distorções urbanas que normalmente são criticadas pelos urbanistas. Empresários inovadores são então colocados no mesmo saco dos corporativistas e acabam levando culpa quando não deviam. Felizmente a SlashSlash venceu essas barreiras de forma justa e criativa, merecendo uma bela parte do mérito pela transformação de Porto Alegre.
Foto: Complex e Club688, disponíveis no Facebook
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A few months ago two new projects opened in Porto Alegre, Complex and Club688. Both ventured by SlashSlash, producer of MECA Festival (bringing us Two Door Cinema Club), have positive urban results for the city, usually criticized by not having many entertainement attractions.
Public Space
When talking about public space I mean it in an urban sense, not in a political or economic one: it is a place where everyone has open access and that can also become an important meeting and interaction point in a society. Stores can be described as public, although they have private origins. Parks and squares built with private investment, already mentioned in this blog here and here, would also be references of public spaces.
So Complex is hard to describe. It's not a square, it's not a restaurant, it's not a store and it's not a bar, but it's a bit of each one of these things. What marks the atmosphere of this place are the three skate bowls, which divide the horizon with the view of the city, as the terrain is on a hilltop. The covered area surrounds the open space, with interconnected and accessible areas. Users can sit at the bar, at a table in the restaurant, visit the store or even hang out next to the bowls, watching the skaters in action. Open all day, Complex has a controlled access, but it's free and does not discriminate, having customers from all social backgrounds. These interact mainly through the common interest in skateboarding, which not long ago has stopped being marginal and has become a respected sport. This mixed-use space can be labled inside the concept of a public space created through entrepreneurship, as it presents every aspect for it and having become an important interaction place in the city. The idea that a private entrepreneur could create such an establishment looked to many utopian and impracticable, but in practice Complex is a success.
Gentrification
The word above is unknown by many. There are many theories going deep into the study of gentrification, but it basically means the phenomenon when a large migration of dwellers reoccupy a degraded urban area. One of the most famous examples for this would be the birth of what we know today as Manhattan's SoHo, which until the end of the 70's was a abandoned and dangerous industrial area, which was then being slowly occupied by artists' studios and small entrepreneurs. With the migration of this culturally influent group which also attracted consumers to this art and these services, the neihbourhood today is vibrant and has some of the most highly valued real-estate in the island, not to mention a huge selection of stores and restaurants, from top brands to street vendors.
Foresight is one of the best qualities in an entrepreneur, and opening a business in Porto Alegre's Historical Downtown area, a neighbourhood which despite being busy during the day is regarded with hostility by residents - mainly at night when it becomes deserted - is a huge risk for the success of a night club like Club688. Gabriel Rezende, one of SlashSlash's partners, explains he strip-searched the neighbourhood by food during six months to find the perfect spot to open the club. Streets provide a ease entry and exit from Downtown, which has a maze of one-way streets, there already was a parking lot in front and from the top deck one can catch a view of the Guaíba, the lake forgotten by portoalegrenses.
Small actions can unleash great changes, and this is the way I see the opening of Club688 in the Downtown of where I grew up. The house plays from rock to electronic, going through indie and pop, attracting all kinds of people. Strongly contributing to the scene by mixing different tribes (which also could be said about Complex) already opened with attendance of the culturally influent, such as those who cured SoHo's urban illness. Now you're thinking: "C'mon, it's only a night club", but it's in this kind of small activities that urbanists started paying attention to after the analysis by Jane Jacobs on what gives life to great cities, registered in the celebrated "Death and Life of Great American Cities", criticizing the view that cities only grow incentivized by large urban interventions. So one can say that both establishments created by SlashSlash are true trendsetters for the city, as they open the way for other entrepreneurs to continue a possible wave of cultural and urban transformation.
Nevertheless, the process of entrepreneurship is not easy and many times fails if there isn't a certain environment for it to happen. Complex and Club688 almost failed to exist due to excessive regulation created by the numerous departments of the City Hall that must be visited in order to approve new ventures and the extended time and uncertainty of the whole approval process, creating enormous costs for the operation. Urbanists underestimate the capacity of entrepreneurs in creating interesting spaces and equipments for the city or, even worse, maintain the dogma that they only want to make profit of public investment to fill their pockets, justifying even more barriers of entry to the architectural market. What is not understood is that things work the other way around: regulation is so restrictive that it stops news ideas and concepts from flourishing, making cities with great potential such as Porto Alegre become monotonous and targets of complaints by their residents. In this situation it is normal to appear corporations that don't innovate but that make deals (many times in a corruptly) with bureaucrats in order to build, generating the monsters and urban distortions which are usually criticizes by urbanists. Innovative businessmen are put in the same category as corporatists and end up taking blame when they shouldn't. Fortunately SlashSlash overcame these barriers in a just and creative way, deserving good credit for Porto Alegre's transformation.
Photos: Complex and Club688, available on Facebook