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29.5.14

5 livros para entender e amar cidades

O estudo de cidades – urbanismo - é uma área de crescente interesse pelo fato de sermos uma espécie cada vez mais urbana. A medida que se diminui a necessidade de mão de obra para agricultura e indústria, aumenta a proporção de humanos vivendo em centros urbanos, trabalhando com serviços e ideias nestes “reatores sociais”, uma definição de cidade usada pelo estudioso de complexidade Geoffrey West.

No entanto, muitos livros nos contam histórias de cidades, outros pulam diretamente para receitas específicas de como corrigir um determinado problema urbano. Não são muitos os livros que mostram o que é uma cidade e como ela funciona. Nesta seleção, o leitor não só vai entender e amar as cidades, mas descobrir que elas são organismos tão incríveis e complexos longe de serem controladas por uma entidade, normalmente associada ao papel do urbanista. Essa leitura permite ao urbanista compreender seu papel como coadjuvante, delegando o controle da cidade para seus próprios cidadãos.


Nova York Delirante, Rem Koolhaas
“A disciplina bidimensional da retícula também cria uma liberdade jamais sonhada para a anarquia tridimensional. A retícula define um novo equilíbrio entre controle e descontrole, em que a cidade pode ser ao mesmo tempo ordenada e fluida, uma metrópole de rígido caos.”
Rem Koolhaas, um dos arquitetos e urbanistas mais influentes da atualidade, nos conta a história de Manhattan, uma das cidades mais relevantes do mundo contemporâneo que teve uma forma muito singular de urbanização. Dentro do seu xadrez viário rígido, Manhattan permitiu a “anarquia tridimensional”, usando suas palavras, gerando o que o autor chama de “cultura da congestão”, uma condição da vida metropolitana que Manhattan conseguiu extrair ao máximo.

As regulações urbanas adotadas em Manhattan – além do grid – até a II GM eram ínfimas próximas às da atualidade, hoje uma cidade “comportada”. Mas o que aconteceu durante o século que Manhattan atraiu centenas de milhares de imigrantes buscando os céus para acomodá-los? De que forma se desenvolveu uma cidade livre, onde o urbanista sai da cena para abrir espaço aos arquitetos? “Nova Iorque Delirante” faz o leitor mais cético respeitar o “manhattanismo”, tornando-se mais aberto ao experimental, ao radical e a uma cultura da congestão.

Onde encontrar: Cosac Naify, Livraria Cultura


The Gated City, Ryan Avent (sem tradução para o português)
“The residents of America’s productive cities fear change in their neighborhoods and fight growth. In doing so they make their cities more expensive and less accessible to people with middle incomes.”
Cidadãos urbanos normalmente gostam não só de imóveis mais baratos mas dos atrativos e atributos de que uma cidade é feita: possibilidades de emprego, lazer, educação e serviços de todo tipo. No entanto, sempre que surge a oportunidade de trazer essas características para a cidade – construindo novas unidades para acomodar mais gente – aqueles que moram próximo dessas construções normalmente fazem o possível para impedir sua execução.

A grande contribuição de Ryan Avent para a literatura de urbanismo com este pequeno livro (disponível apenas para Kindle) é mostrar como funciona o mercado imobiliário e quais os efeitos não intencionais de restrições de oferta à moradia. A ideia central é de que impedir a construção de mais unidades (ou “NIMBYism”, “Not in My BackYard”) torna as cidades cada vez mais parecidas com condomínios fechados, exclusiva à população de fora já que é impossível acomodar mais gente, uma “Cidade Cercada”, na tradução literal do título.

Onde encontrar: Amazon


The Voluntary City, edição de David T Beito, Peter Gordon, Alexander Tabarrok (sem tradução para o português)
“Developers were able to tailor the extent of their providing “public goods” via covenant to the nature and scope of local demand, as well as account for other factors such as land and building costs. This is in marked contrast to the rigidity and fixity of state attempts to supply these goods through public planning, zoning laws, and the like. The flexibility also extended to the enforcement of covenants. Landlords and developers would often not enforce the building clause in a lease when demand for land was slack, as long as the rent was paid.”
Este livro serve como um poderoso suporte histórico para a teoria de urbanismo emergente, ausente de um planejamento centralizado. O livro é um compêndio de textos que viajam pelo mundo mostrando diferentes experiências de urbanização emergente ou “voluntária”, explicando os benefícios e os problemas encontrados durante cada um dos processos. Os exemplos são de extrema utilidade para traçar paralelos à urbanização brasileira e, ainda, embasar ideias com exemplos reais.

Um dos meus artigos prediletos é o primeiro, “Laissez-faire Urban Planning”, por Stephen Davies. Ele traça o panorama histórico do crescimento de cidades britânicas e principalmente de Londres, uma das minhas cidades favoritas, que cresceram de forma descentralizada como uma sucessão de loteamentos, bairros privados e projetos arquitetônicos em várias escalas. Londres não só era ausente de um plano geral como muitos dos seus bairros com toda sua infraestrutura eram construídas na ausência do setor público, uma série de projetos privados de tudo quanto é tipo. Quem diria que o West End e Nottingham eram, na verdade, empreendimentos imobiliários?

Onde encontrar: Amazon e Livraria Cultura



Os Centros Urbanos: A maior invenção da humanidade, Edward Glaeser
“A força que advém da colaboração humana é a verdade central por trás do sucesso da civilização e o principal motivo da existência de cidades. Para entender melhor as cidades e o que fazer com elas, precisamos nos apegar a essas verdades e nos desfazer de mitos prejudiciais. Precisamos descartar a visão de que o ambientalismo significa viver ao redor de árvores e que os urbanistas devem sempre lutar para preservar o passado físico da cidade. Precisamos parar de idealizar a casa própria que favorece loteamentos de casas nos subúrbios, em detrimento dos edifícios de apartamentos, e parar de romantizar as vilas rurais. Devemos evitar a visão simplistas de que a melhor comunicação a longa distância reduzirá nosso desejo e nossa necessidade de estar perto uns dos outros. Acima de tudo, devemos nos libertar de nossa tendência de ver as cidades como sendo suas edificações e lembrar que a cidade real é constituída de gente e não de concreto.”
Best-seller do New York Times, com este livro Ed Glaeser se tornou uma das maiores referências vivas do urbanismo contemporâneo e um dos meus urbanistas prediletos. Através de uma viagem pelas principais cidades do planeta, Glaeser quebra lendas urbanas que normalmente impedem a urbanização, respondendo questões controversas como “O que há de tão bom sobre os arranha-céus?” e “Não há nada mais ecológico que o asfalto?” com respostas embasadas, elegantes e, no fim, mais pragmáticas que controversas.

Com este livro aprendemos que grande parte do sucesso da humanidade está nas grandes cidades, que nos tornam “mais ricos, inteligentes, saudáveis e felizes”, e não o contrário como muitos imaginam. No entanto, para que isso aconteça é necessário perder nossos medos irracionais relacionados ao adensamento, à verticalização e à urbanização propriamente dita para, enfim, permitir que a cidade aconteça. A clareza, eloquência e embasamento acadêmico de Glaeser torna “Triumph of the City” (seu título em inglês) uma leitura obrigatória para aqueles que estudam as cidades, e não tenho dúvidas de que ele se tornará um clássico no futuro.

Onde encontrar: Elsevier, Casas Bahia



Morte e Vida das Grandes Cidades, Jane Jacobs
“Tratar de uma cidade, ou mesmo de um bairro, como se fosse um grande problema arquitetônico, capaz de ser resolvido através de um trabalho disciplinado de arte, é cometer o erro de tentar substituir a vida pela arte. Os resultados de tão profunda confusão entre arte e vida não são nem arte, nem vida. Eles são taxidermia.”
Este livro é, sem dúvida, um dos livros mais influentes da história do urbanismo e o mais influente no pensamento contemporâneo sobre cidades. Jane Jacobs, uma jornalista canadense morando em Nova Iorque, mostra seu entendimento sobre grandes cidades através das suas próprias observações e vivências urbanas, tornando-se a maior crítica do planejamento urbano modernista do início do século XX, de representantes como Lúcio Costa, Le Corbusier ou Robert Moses.

Através dessas observações, Jacobs denuncia em linguagem direta e auto-didata como as grandes interferências autoritárias dos urbanistas nas cidades construindo viadutos, destruindo patrimônio histórico e bairros inteiros para construir guetos de habitação pública eram as principais causas dos problemas que as cidades estavam enfrentando. Jacobs era uma defensora de uma cidade mais espontânea, admirando no seu texto o crescimento orgânico das cidades antigas, a vida nas ruas, o “balé complexo”. Nesse sentido, o ponto focal de suas ideias se assemelha às do economista Friedrich Hayek, evidenciando a impossibilidade da compreensão e do controle de uma construção coletiva, descentralizada e complexa.

Vale apontar que ela não se considerava uma “liberal”, mas entendia e valorizava o funcionamento do mercado em quase todos aspectos da cidade, um processo emergente assim como uma cidade. Em entrevista à revista Reason ela colocou objetivamente que gostaria de ver maior liberdade no setor de transportes, restritos pelos monopólios de grandes ônibus, e na revitalização de bairros históricos, que muitas vezes ficam congelados por legislações nada relacionadas à preservação propriamente dita.No entanto, a sua convicção pela participação popular, sua luta pela preservação de bairros contra arranha-céus e suas críticas aos grandes projetos que se beneficiavam com subsídios públicos e desapropriações a tornou um símbolo de arquitetos, urbanistas e ativistas de ideologias de esquerda. Paradoxalmente sua obra incentivou novos movimentos que pregam o regramento e a autoridade na cidade – desde que ela seja a autoridade “certa”, como defende todo planejador. Muitos dos leitores de “Morte e Vida” interpretam as qualidades urbanas que ela descreve como normas para a elaboração de planos – incorporadas em grande parte no desenvolvimento do novo Plano Diretor de São Paulo, por exemplo. Ou seja, ao invés de abraçar a questão central das ideias de Jacobs de um urbanismo mais espontâneo e descentralizado, muitos hoje citam as qualidades urbanas evidenciadas por Jacobs para justificar diretrizes rígidas de planejamento que supostamente gerariam aquele resultado: taxidermia.

Onde encontrar: Martins Fontes, Livraria da Folha

21.8.13

"A única relação legítima que os arquitetos podem ter com o caos é tomar seu lugar no exército daqueles devotados a resistir a ele, e falhar. "

Um dos meus textos favoritos do Rem Koolhaas, tirado do livro S,M,L,XL, acaba de ser publicado na página do Facebook da X Bienal de Arquitetura, com tradução da Ana Luiza Nobre.

Segue abaixo com grifos meus. O texto original em inglês pode ser encontrado gratuitamente aqui.








"Este século foi uma batalha perdida com o problema da quantidade.  
Apesar das suas promessas iniciais, da sua freqüente bravura, o urbanismo foi incapaz de inventar e se cumprir na escala demandada por seus demográficos apocalípticos. Em 20 anos, Lagos cresceu de 2 para 7, para 12, para 15 milhões de habitantes; Istambul dobrou de 6 para 12. A China prepara-se para multiplicações ainda mais chocantes. 
Como explicar o paradoxo de que o urbanismo, como profissão, desapareceu no momento em que, por toda a parte, a urbanização – depois de décadas de aceleração constante – está a caminho de promulgar um “triunfo” definitivo e global da condição urbana? 
A promessa alquímica do modernismo – transformar quantidade em qualidade por meio da abstração e da repetição – foi um fracasso, um embuste: mágica que não deu certo. Suas idéias, estética, estratégias chegaram ao fim. Juntas, todas as tentativas de criar um novo começo apenas desacreditaram a ideia de um novo começo. Uma vergonha coletiva correspondente a esse fiasco criou uma enorme cratera na nossa compreensão de modernidade e modernização. 
O que torna essa experiência desconcertante e (para os arquitetos) humilhante é a persistência desafiadora da cidade e seu aparente vigor, não obstante a falência coletiva de todas as agências que operam sobre ela ou tentam influenciá-la – criativamente, logisticamente, politicamente.  
Os profissionais da cidade são como jogadores de xadrez que perdem para computadores. Um piloto automático perverso constantemente passa a perna em todas as tentativas de apreender a cidade, esgota as ambições de defini-la, ridiculariza as afirmações mais apaixonadas quanto à sua falência atual e sua impossibilidade futura, a conduz implacavelmente além no seu vôo à frente. Cada desastre profetizado é de algum modo absorvido pela infinita anulação do urbano.

Mesmo que a apoteose da urbanização seja óbvia e matematicamente inevitável, uma corrente de retaguarda, ações escapistas e posições adia o momento final de avaliação das duas profissões inicialmente mais implicadas com a criação de cidades - arquitetura e urbanismo. A urbanização difusa modificou a própria condição urbana, tornando-a irreconhecível. “A” cidade não existe mais. Enquanto o conceito de cidade é distorcido e tensionado como nunca antes, toda insistência em sua condição primordial – em termos de imagens, regras, fabricações - conduz irrevogavelmente, via nostalgia, à irrelevância. 
Para os urbanistas, a redescoberta atrasada da cidade clássica, no momento da sua impossibilidade definitiva, pode ter sido o ponto de não-retorno, momento fatal de desconexão, desqualificação. Eles são agora especialistas em dor fantasmática: médicos discutindo as complicações de um membro amputado.  
A transição da antiga posição de poder para um estado de humildade relativa é difícil. A insatisfação com a cidade contemporânea não levou ao desenvolvimento de alternativas verossímeis; ao contrário, apenas inspirou modos mais refinados de articular a insatisfação. Uma profissão persiste nas suas fantasias, sua ideologia, sua pretensão, suas ilusões de envolvimento e controle, e como tal é incapaz de conceber novas reservas, intervenções parciais, realinhamentos estratégicos, posições conciliatórias que podem influenciar, redirecionar, ter êxito limitado, reagrupar, até começar a riscar, mas nunca restabelecer o controle.  
Porque a geração de Maio de 68 – a geração pega no “narcisismo coletivo de uma bolha demográfica” – está finalmente no poder, é tentador pensar que ela é responsável pela morte do urbanismo – o estado de coisas em que as cidades não podem mais ser feitas – paradoxalmente porque ela redescobriu e reinventou a cidade. 
Sous le pavé, la plage (sob o calçamento, a praia): inicialmente, Maio de 68 lançou a ideia de um novo começo para a cidade. Desde então, estivemos engajados em duas operações paralelas: documentar nossa admiração pela cidade existente, desenvolvendo filosofias, projetos, protótipos para uma cidade preservada e reconstituída, e ao mesmo tempo, rindo do campo do urbanismo, destruindo-o com nosso desprezo por aqueles que planejaram (cometendo muitos erros) aeroportos, New Towns, cidades satélites, elevados, torres, infraestruturas e todas as outras precipitações da modernização. Depois de sabotar o urbanismo, nós o ridicularizamos até fechar departamentos universitários inteiros, levar escritórios a falência, incendiar ou privatizar burocracias. 
Nossa “sofisticação” esconde grandes sintomas de covardia centrados na simples tomada de posição – talvez a ação mais primordialmente ligada à cidade. Somos simultaneamente dogmáticos e evasivos. Nossa sabedoria amalgamada pode ser facilmente caricaturada: de acordo com Derrida não podemos ser o Todo, de acordo com Baudrillard não podemos ser o Real, de acordo com Virilio não podemos ser o Aí. 
“Exilados para o Mundo Virtual”: enredo para um filme de terror. Nossa relação atual com a “crise” da cidade é profundamente ambígua: ainda culpamos outros por uma situação pela qual tanto nosso utopismo incurável quanto nosso desprezo são responsáveis. Através da nossa relação hipocrítica com o poder – desdenhosa porém cobiçosa – nós destruímos uma disciplina inteira, rompemos com o operacional, e condenamos populações inteiras à impossibilidade de codificar civilizações em seu território – o tema do urbanismo.  
Agora ficamos com um mundo sem urbanismo, apenas arquitetura, sempre mais arquitetura. A elegância da arquitetura é sua sedução; ela define, exclui, limita, separa do “resto” – mas também consome. Ela explora e exaure os potenciais que podem ser gerados somente pelo urbanismo, e que somente a imaginação específica do urbanismo pode inventar e renovar. 
A morte do urbanismo – nosso refúgio na segurança parasítica da arquitetura – cria um desastre imanente: mais e mais substância é enxertada em raízes famélicas. Nos nossos momentos mais permissivos, nós nos rendemos à estética do caos – “nosso” caos. Mas, no sentido técnico, caos é o que acontece quando nada acontece, não é algo que pode ser criado pela engenharia ou acalentado; é algo que se infiltra; que não pode ser fabricado. A única relação legítima que os arquitetos podem ter com o caos é tomar seu lugar no exército daqueles devotados a resistir a ele, e falhar. 
Se existe um “novo urbanismo”, ele não será baseado nas fantasias gêmeas da ordem e da onipotência; ele será o estado de incerteza; ele não estará mais preocupado com o arranjo de objetos mais ou menos permanentes mas com a irrigação de territórios com potencial; não terá mais como alvo configurações estáveis mas a criação de campos capazes de acomodar processos que se negam a cristalizar-se em formas definitivas; não será mais sobre definições meticulosas, imposição de limites, sobre separar e identificar entidades, mas sobre descobrir híbridos inomináveis; não será mais obcecado pela cidade mas pela manipulação de infraestrutura para intensificações e diversificações infinitas, atalhos e redistribuições – a reinvenção do espaço psicológico. Como o urbano agora é difuso, o urbanismo nunca mais será sobre o “novo”, somente sobre o “mais” e o “modificado”. Ele não será sobre o civilizado, mas sobre o subdesenvolvimento. 
Como está fora do nosso controle, o urbano está prestes a se tornar o vetor máximo da imaginação. Redefinido, o urbanismo não será mais, ou mais que tudo, uma profissão, mas um modo de pensar, uma ideologia: aceitar o que existe. Nós estávamos fazendo castelos de areia. Agora nadamos no mar que os varreu para longe. 
Para sobreviver, o urbanismo terá que imaginar um novo Novo. Liberado de suas tarefas atávicas, o urbanismo redefinido como modo de operar sobre o inevitável irá atacar a arquitetura, invadir suas trincheiras, afastá-la de seus bastiões, minar suas certezas, explodir seus limites, ridicularizar suas preocupações com matéria e substância, destruir suas tradições, desmascarar seus profissionais. 
O que parece ser a falência do urbano oferece uma oportunidade excepcional, um pretexto para a frivolidade nietzscheana. Temos que imaginar 1001 outros conceitos de cidade; temos que assumir riscos insanos; temos que ousar ser totalmente acríticos; temos que engolir fundo e conceder perdão a torto e a direito. A certeza da falência deve ser o nosso gás/oxigênio, a nos provocar riso; a modernização nossa droga mais potente. Como não somos responsáveis, temos que nos tornar irresponsáveis. Numa paisagem de crescente utilitarismo e impermanência, o urbanismo não é mais nem tem que ser a mais solene das nossas decisões; o urbanismo pode se tornar mais leve, uma Gay Science – Lite Urbanism. 
E se nós simplesmente declararmos que não há crise – redefinirmos nossa relação com a cidade não como criadores mas como meros sujeitos, como seu esteio?  
Mais do que nunca, a cidade é tudo o que temos."

28.3.13

Quando um "projeto comercial" era o Rockefeller Center

Arquitetura comercial é uma das palavras mais abominadas no meio arquitetônico acadêmico. Para mim, o motivo surge já que, para uma determinada construção ser economicamente viável no Brasil primeiro há enormes custos envolvidos com a adaptação à regras urbanas - normalmente destrutivas - como vagas mínimas de garagem, afastamentos obrigatórios, contabilidade de áreas construídas seguindo critérios questionáveis, leis de zoneamento, entre outras. Além disso, o risco envolvido com mudanças de regras locais, o enorme poder decisório político em toda construção e as incertezas em relação ao financiamento da obra tornam o foco qualquer incorporador muito além do campo arquitetônico e construtivo.

No entanto, houve um momento e lugar em que as coisas não eram assim: a Manhattan da década de 20. Lá, logo no estouro da crise financeira de 1929 surge o empreendimento Rockefeller Center, empreendido por John D. Rockfeller Jr., filho de provavelmente um dos empresários mais famosos da humanidade que, após se comprometer com o investimento, mudou o programa original de uma sede para a Metropolitan Opera para...
"o máximo de congestão com o máximo de luz e espaço" e "Qualquer planejamento [...] deveria se basear num 'centro comercial o mais belo possível em consonância com o máximo rendimento a ser gerado'".
O programa do Rockefeller Center consiste em conciliar essas incompatibilidades. 
Uma inédita aliança de talentos trabalha nesse empreendimento, insólita por seu tamanho e variedade. Como descreve Raymond Hood: "Seria impossível calcular o número oficial de cabeças empenhadas em destrinçar as complexidades do problema; e certamente o número extraoficial de cabeças que ponderaram o tema seria um palpite ainda mais descabido". 
O Rockefeller Center é uma obra prima sem um gênio.  
Como não há um responsável individual pela criação de sua forma definitiva, a concepção, o nascimento e a realidade do Rockfeller Center têm sido interpretados - dentro do sistema tradicional de avaliação arquitetônica - como uma complexa situação de compromisso,  um exemplo de "arquitetura de comitê". 
Mas a arquitetura de Manhattan não pode ser medida por instrumentos convencionais; eles são resultados absurdos: ver o Rockefeller Center como uma solução de compromisso é indicação de cegueira. 
A essência e a força de Manhattan residem no fato de que toda a sua arquitetura é "de comitê", e de que o comitê é formado pelos próprios moradores de Manhattan.

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O Rockfeller Center, idealizado com o mesmo espírito de devoção estética, é concebido para satisfazer, no padrão e no serviço, ao espírito multifacetado de nossa civilização. Resolvendo seus vários problemas, estabelecendo uma relação mais íntima entre a beleza e os negócios, ele promete ser uma contribuição significativa para o planejamento urbano de um futuro que desabrocha. 

Assim o arquiteto e urbanista Rem Koolhaas descreve o projeto em seu livro "Nova York Delirante". Um projeto comercial em essência, criou como forma de valorizar seu metro quadrado construído um dos espaços públicos mais fantásticos da cidade: sempre movimentado, com espaços para sentar, atividades para participar, críticas sendo manifestadas, shows e arte para olhar e, como não poderia faltar, lojas para comprar. Para completar, o projeto inaugurou um dos primeiros telhados verdes em edifícios na Manhattan moderna.

No início do século a cidade esbanjava liberdade construtiva, tornando o único diferencial entre construtores justamente a qualidade e a eficiência de sua obra: sem politicagem, já que políticos pouco mandavam. Para Koolhaas, o Rockefeller Center é o ápice do boom construtivo do início do século que chega à "Manhattan definitiva". O projeto é comercial no sentido mais puro da palavra que, como descreve o trecho do livro, tem todos os moradores de Manhattan como críticos da qualidade do trabalho: verdadeiros consumidores em um mercado de arquitetura.