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26.8.13

Um passeio no Minhocão, uma vista para o Centro


Ontem fui caminhar no Minhocão (Elevado Pres. Costa e Silva). Da época da Ditadura Militar, a obra foi uma das maiores (senão a maior) aberrações da gestão do Maluf em São Paulo. O viaduto desvalorizou não só os prédios como todas as adjacências por onde ele passa. As paradas de ônibus que existem embaixo dele hoje são escuras e perigosas, com inúmeros pontos de crack. O trânsito de São Paulo hoje é um dos piores do mundo e hoje o Minhocão tem muito mais valor como área de lazer do que de trânsito: fecha para pedestres aos domingos e feriados e é palco de festivais como o BaixoCentro e a Virada Gastronômica.

Infelizmente a ideia de que o trânsito se resolve com grandes obras públicas continua, principalmente em Porto Alegre. O novo Viaduto Pinheiro Borda, ao custo de R$26.639.035,45, vai acabar com um dos trechos mais marcantes da Orla do Guaíba e piorar o trânsito da cidade a longo prazo. Nada difícil de prever, pois é o resultado de praticamente 100% das construções de viadutos na história das cidades. Não ouvi nada da Prefeitura até o momento sobre permitir adensamento das zonas centrais e empreendedorismo em transporte, medidas que tem custo ZERO para o bolso do cidadão com resultados enormes em mobilidade.

Na foto, ao fundo, o Edifício Altino Arantes, no Centro de São Paulo. Construído entre 1939 e 1947 e inspirado no Empire State Building, foi o edifício mais alto de São Paulo durante quase 20 anos. Assim como Porto Alegre, o Centro de São Paulo é um dos melhores lugares da cidade para se andar a pé, justamente por causa da densidade. Pena que não fazemos nossas cidades como antes.

13.10.12

Mais uma atualização (temas diversos)

Abaixo a atualização da estrutura do Projeto Livro.

O primeiro colaborador a ser creditado será Eduardo VR, obrigado!

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Introdução
- Sou arquiteto e urbanista, e não tenho formação "oficial" em economia. Mas o estudo de urbanismo e o entendimento do funcionamento de uma cidade depende fortemete de um conhecimento de economia, área de conhecimento a qual dedico grande parte do meu tempo.
- Assim, além das intenções deste livro em tentar analisar, entender e criticar as metrópoles brasileiras, ele também serve como uma forma de ensinar economia para arquitetos e urbanistas e de ensinar arquitetura e urbanismo para economistas.
- Achei nada mais do que justo registrar nos créditos do livro quem foram os colaboradores do texto, pessoas que se interessaram e engajaram na discussão.

Falta participação?
- Pergunte aos portoalegrenses se eles acreditam que é necessário um alargamento da Rua Anita Garibaldi, ou uma passagem de nível da Av. Perimetral sob a Av. Plínio Brasil Milano. A maioria dirá que sim, mesmo que seja custoso e que favoreça ainda mais trânsito, já que a verba pública é direcionada a dar mais conforto a quem está nos automóveis e menos conforto para quem está a pé, de bicicleta ou de transporte público.
- Projetos sempre vão "inaugur defasados", já que o incentivo a esse tipo de meio de transporte é constante e as obras levam muitos anos para serem completadas.
- Os grupos que surgem contra estas obras públicas, por outro lado, são quase que invariavelmente contra a densificação e a verticalização, mesmo que isto também favoreça o trânsito por aumentar as distâncias entre as atividades e estimule a destruição na natureza nos arredoresdas cidades, onde as pessoas são obrigadas a morar já que os moradores dos centros os proíbem de compartilhar seu espaço.
- Ambos grupos são vistos pelo outro como "egoístas que não pensam no bem da cidade".

Gente demais?
- Sombra produzida pelos prédios é uma externalidade negativa que é sobreposta pela externalidade positiva da aglomeração de gente.
- Antigamente se acreditava que o ar ficava infectado por falta de sol, que se provou uma falsidade. Mesmo assim se continua atuando da mesma forma, com cidadãos lutando contra a verticalização.
- Construções novas com mais de 10 andares em Porto Alegre são rotuladas negativamente de "espigões".
- Atualmente moro em um edifício de 20 andares em São Paulo, próximo ao meu trabalho. Vou e volto a pé todos os dias em 10 minutos, com diversas opções de comércios, serviços e entretenimento no caminho. Se os vizinhos do meu prédio tivessem tido a mesma reação portoalegrense, ele basicamente não existiria. Eu ora teria que pagar por um aluguel mais caro para morar no mesmo bairro ou morar mais longe, a uma distância menos viável para caminhada.
- Externalidades positivas dos centros urbanos surgem a partir da divisão do trabalho e da especialização de funcões permitida por uma sociedade interconectada: identificado desde Fredrick Law Olmstead, arquiteto, urbanista e paisagista americano que projetou áreas como o Central Park, em Nova Iorque, e o campus de Yale.
- Do livro "Parks and City Planning", de 1890 (tradução livre): "Considere, por exemplo, o que é feito (que no campo não é feito ou que é feito por residência casa para si mesma e, se eficientemente, com um esforço constante e cansativo de para tal) pelo acogueiro, padeiro, peixeiro, merceeiro, pelos vendedores de todos os tipos, pelo homem do gelo, homem do pó, limpadores de rua, pelo carteiro, pelo entregador e por mensageiros, todos te servindo em sua casa quando necessário."
- Pesquisar mortalidade e expectativa de vida nas cidades

Soluções locais
- Política urbana na metropole é contra intuitiva ao pensamento moderno: quanto mais gente e mais construcões, melhor. Quanto menos ruas, melhor.

Trânsito
- Mesmo se viadutos e planos foram definidos de forma autoritária, depois que maioria da população tem carro democracia tenderá a eleger políticos que favorecem mais quem tem carro

Déficit habitacional e moradia vs. Preços absurdos de imóveis
- Paul Krugman, que chama as zonas reguladas americanas de "Zoned Zone" evidencia como o preço dos imóveis cresce mais rapidamente nessas áreas.

Condomínios e Shoppings vs. Espaço público de má qualidade
- Nem todos terrenos são ideais para uma praça, e nem sempre o estado sabe gerenciar esses espaços.
- Como exemplo, mesmo em uma das cidades mais densas do mundo e sendo oferecidos gratuitamente aos usuários finais, a parte norte do Central Park é pouco utilizada, sendo até hoje uma área perigosa. Da mesma forma, a parte sul do Parque Marinha do Brasil, em Porto Alegre, raramente é ocupada.
- Até mesmo o Parque Ibirapuera, no anel central de São Paulo, uma dos locais mais densoas do Brasil, é praticamente deserto durante a semana e tem zonas de baixa ocupação durante os finais de semana.
- Também em São Paulo, a revitalização do Largo de Pinheiros (também chamado de Largo da Batata) se equivaleu à uma "limpeza urbana", gerando talvez o pior espaço público de todos, sem lugar para sentar, sem árvores, sem coberturas para parada de ônibus.
- Em Brasília espaços verdes são em tanta quantia que são um total desperdício. Além de serem ocupadas com grama, deve ser cortada e não atrai fauna como árvores, cria artificalmente as distâncias a serem percorridas quase que obrigatoriamente de carro, em uma cidade onde o preço dos imoveis está entre os mais caros do Brasil. Cidade é tombada prejudicando a vida de milhares de pessoas para manter o erro urbanístico eternamente.
- Em São Paulo há algumas iniciativas privadas para revitalização e criação de espaços públicos. Revitalização da Rua Oscar Freire e arredores foi iniciativa da Associação de Lojistas da Oscar Freire, com investimento da American Express junto à Prefeitura.
- Sendo proprietária de vários pontos comerciais da Rua Amauri, a família Diniz criou na mesma rua um pocket park de altíssima qualidade, valorizando ainda mais os pontos da rua e criando uma imagem positiva da família com a cidade.
- Rockfeller Center, em Nova Iorque, talvez seja o exemplo mais interessante deste tipo de projeto. onsiderado o maior projeto privado já realizado em tempos modernos em um ambiente urbano de baixíssima regulação da construção civil de Manhattan da década de 30, teve a construção da praça como um elemento central de valorização do projeto. Sempre movimentada, o espaço também abriga no inverno a pista de patinação que mais chama atenção no mundo.
- Política de adoção de parques por empresas privadas em algumas capitais brasileiras transformou o Parque Moinhos de Vento, em Porto Alegre, em talvez um dos grandes parques mais bem cuidados do Brasil, atualmente com patrocínio da Cia. Zaffari e do Hospital Moinhos de Vento.
- Espaço público das ruas atualmente são apenas circulações: Pensando em uma casa, é como se tivessemos mais áreas de corredores do que de quarto, sala, banheiro e cozinha.
- Da mesma forma que em arquitetura hoje sempre se pensa em unificar as salas e acabar com os corredores, ganhando área, as ruas poderiam seguir o mesmo exemplo. - Com investimento relativamente baixo é possível transformar as ruas em parques lineares, com calçadas mais amplas, árvores e áreas para sentar.
- Maioria das atividades dos grandes parques, que invariavelmente tem áreas inutilizadas, poderiam ser jogadas para as ruas, como corrida, bicicleta, pontos de encontro e conversas em bancos.
- Parques propriamente ditos seriam menos demandados com esta transformação das ruas - Grandes parques pontuais obrigam o cidadão a se deslocar muito (muitas vezes de carro) para aproveitar o espaço público
- Microparques e praças e ruas bem aproveitadas resolvem de forma mais eficiente a ocupação do solo urbano

Abandono dos Centros e dos edifícios históricos
- É difícil concordar que tudo deve ser preservado (seria quase um caso de "compulsive hoarding") e também é difícil concordar que nada deve ser preservado (acabando com o estudo da história), sendo interessante então avaliar como e quanto as coisas devem ser preservadas.
- Minha interpretação é de que qualquer objeto ou expressão humana pode ser considerada arte ou parte da nossa historia (principalmente depois de Duchamp e o mictório de cabeça para baixo, na figura) dependendo do ponto de vista.
- Não me parece correto usar a força (cobrança através de impostos) para usar a força mais uma vez (impedir que os proprietários façam alterações na sua propriedade) para preservar algo que é de critério subjetivo de um terceiro.
- Ideia sobre tombamento está começando a mudar. "Preservation is a highly artificial term... History happens and leaves its traces... I have to say, I prefer history without preservation."
- Ignasi de Solà Morales: cidades históricas se tornam parques temáticos da humanidade, lotados de turistas, praticamente sem moradores locais.

24.9.12

Revivendo o Centro abandonado / Reviving the Abandoned Downtown

"Esqueleto urbano" na Praça XV, em Porto Alegre
Centro: odiado por muitos, amado por poucos, onde muitos trabalham e poucos moram, onde sujeira, pixações e propagandas ilegais escondem uma cidade perdida. Por que saímos do Centro, e quando voltaremos?

Em São Paulo, de 1970 a 2000, os principais bairros da Zona Central perderam praticamente metade de sua população, tornando-se uma região predominantemente de comércio, abandonada à noite na falta de gente suficiente para se apropriar, ou tomar conta, do espaço público. Estima-se que há 40.000 imóveis encontram-se abandonados só na região da Administração Regional da Sé, uma região totalmente equipada com infraestrutura, serviços públicos e um comércio movimentadíssimo durante o dia.

Essa mesma falência se repete nas principais metrópoles brasileiras: No Centro do Rio de Janeiro, 39 edifícios já apresentam risco de desabamento. Em Porto Alegre, sejam casarões na Duque de Caxias ou prédios altos na Praça XV, não faltam exemplos de construções abandonadas no Centro Histórico. São múltiplos os motivos que levaram as pessoas a saírem, que se retroalimentam c degradação espacial: saída de moradores de rendas mais altas, os habitantes e frequentadores do "passado romântico" desses bairros em busca de lares menos barulhentos e mais espaçosos (subsidiados pela infraestrutura voltada para automóveis e regulamentações anti-densidade e anti-usos mistos em bairros selecionados); degradação dos imóveis com o tempo, aumentando gradualmente o custo de manutenção e adaptação à tecnologias modernas; aluguéis e condomínios altos demais para moradores de baixa renda; aumento de taxas de criminalidade (principalmente furtos de celulares e carteiras). No caso do Rio de Janeiro, uma das causas foi uma decisão dos "técnicos", que proibiram a moradia em boa parte do Centro por decreto de 1974 até 1994.

Mas mesmo com os preços baixos, o mercado de construção civil age com cautela e lentidão para reinvestir na área. Por que a inércia?

Como primeiro motivo é de se notar que vários dos prédios abandonados são do próprio estado, sem perspectivas de investimento privado. Ao invés de tentar criar ou expandir órgãos apenas como justificativa para ocupá-los, uma alternativa para estes edifícios seria leiloá-los abertamente, arrecadando o máximo possível para o poder público e reinvestindo na sociedade e, ao mesmo tempo, incentivando o comprador a tomar uma decisão responsável com o patrimônio adquirido.

Logo em seguida estão os prédios tombados, construções legalmente protegidas por serem consideradas parte do patrimônio histórico da cidade, estado, país ou mundo. Entretanto, como já comentei em post anterior, o tombamento de um edifício normalmente é um tiro que sai pela culatra. Vários edifícios são largados às moscas justamente pelas barreiras a adaptação e pelos altos custos de manutenção exigidos. As regras procuram preservar a história mas infelizmente criam resultados opostos. É possível considerar ainda que alguns destes edifícios, pelo número de restrições estabelecidas pelo tombamento, são mais públicos do que privados, já que o direito de propriedade sobre o bem é muito fraco.





Edifício da Companhia Nacional de Tecidos: em vias de ser recuperado após entraves legais, ocupações, dívidas e denúncias de corrupção (Fonte: G1)


Assim como os tombamentos, a cobrança do IPTU também é uma política que tem grandes chances de surtar efeitos justamente contrários aos que foram propostos, sendo no caso evitar a ociosidade de terrenos. O que acontece basicamente são dívidas milionárias de IPTU atrelados a esses imóveis, na maioria das vezes de proprietários que perderiam tudo caso tivessem que arcar com os custos e que ao mesmo tempo afugentam construtoras a comprar as propriedades já que teriam que quitar a dívida para empreender um projeto sério. Segundo o site Edifícios Abandonados, alguns exemplos no centro de São Paulo, como os edifícios Prestes Maia e Mauá, ultrapassam R$2 milhões a pagar. Uma alternativa para este problema seria descontá-los do IPTU como um incentivo à sua reocupação, colocando-o novamente atrativo para investidores, o que parece ter acontecido no caso do prédio da antiga Companhia Nacional de Tecidos, em São Paulo. A regra vigente de desapropriação sob pagamento de títulos de dívida pública acaba sendo pior já que coloca o destino da propriedade nas mãos de grupos políticos, muitas vezes dando continuidade ao abandono ou tendo seu uso mal alocado, já que decisões públicas tem poucos incentivos para serem eficazes.

Por fim, há alguns edifícios que já estão nas mãos de investidores privados, mas que esperam o momento certo para reformá-los. Sim, esta é a chamada "especulação imobiliária", mal vista porém incompreendida por maioria das pessoas, e no entanto provavelmente uma das alternativas mais realistas para reocupar os centros. A lógica é simples: se estes investidores realizarem as obras muito cedo poucos compradores podem aparecer, que além de gerar uma grande perda econômica os edifícios continuarão vazios. Por outro lado, se demorarem demais o custo do investimento (dinheiro que poderia render juros em uma aconta bancária) cresce e pressiona o investidor a realizar o projeto. Ele tem, assim, bons incentivos para identificar quais são as maiores demandas e quando será o momento perfeito de agir.

Apesar de lento, é este caminho que fez a Zona Central de São Paulo ser a região que mais cresceu nos últimos 10 anos, revertendo o cenário dos 30 anos anteriores. Poucos sabem, mas ela ganhou neste período 63 mil habitantes, representando um aumento de 13,3%. As reformas são graduais, primeiro por aqueles atraídos aos custos baixos e à proximidade ao trabalho, e assim 60 mil metros quadrados do Centro de São Paulo já foram reformados nos últimos anos, com uma tendência parece continuar. Porto Alegre também vê este movimento, que hoje reverte a tendência de emigração que durou de 1980 a 2005, onde o Centro Histórico perdeu um terço de sua população.



Mas investidores ainda enfrentam outros custos e riscos para seguirem em frente, normalmente gerados pelos planejadores municipais: além das dívidas de IPTU, ainda há regras que como a obrigação de criação de vagas de garagem, a limitação do potencial construtivo e um períodos intermináveis para aprovação de projetos, aumentando o risco dos projetos e o custo do m² construído. Qualquer edificação tombada ainda possui uma "área de influência", que restringe o que é construído no seu entorno, e por serem antigos nossos centros estão repletos destas áreas de influência.

A questão da segurança pública também é uma variável não controlada pela iniciativa privada, principalmente no tangente ao violento tráfico de drogas - um desafio importante para a reurbanização do Centro no caso de São Paulo, já que é lá que está instalada a chamada "Cracolândia". Como já escreveu o urbanista Stephen Smith, "a guerra às drogas é uma guerra às cidades", e a regularização das drogas proibidas, desconectando-as das atividades criminais, deve ser seriamente avaliada a nível nacional.

Mas as prefeituras não teriam parte do mérito nesta reocupação, já que fazem investimentos em grandes projetos e na recuperação deste patrimônio tombado? Em Porto Alegre, o programa Monumenta pretende investir R$21 milhões, já o Procentro paulistano, R$184 milhões. Mas analisando a situação como um todo, fica clara a atitude paradoxal dos políticos, criando dificuldades em uma ponta para mostrar serviço em outra. Assim como os projetos a nível federal, megaprojetos empreendidos e financiados pelo estado dão mais votos, já que eleitores "vêem para onde está indo o dinheiro", diferente de políticas que gradualmente permitem um desenvolvimento natural da região. Ainda, as empresas que participam das empreitadas estatais, recebendo empréstimos especiais e garantias politicas, acabam não correndo o risco que deveriam, servindo apenas como um braço articulador mais eficiente de uma política pública gerada por interesses políticos.

Projeto Cais Mauá, em Porto Alegre. Bom, mas não pra todos
Desconsiderando demandas reais de mercado, estes programas esquecem da alternativa de apenas reduzir os impostos e retirar regras que praticamente proibem a ocupação dos centros e levam ao encarecimento da construção, permitindo que cidadãos então independentes escolham o futuro do Centro consumindo projetos de ONGs e construtoras de forma responsável. Os programas estatais para reviverem áreas centrais mortas, por mais que possam parecer causas nobres, utilizam dinheiro público para tal e, na prática, se tornam uma redistribuição de renda inversa. Com um direcionamento artificial a certas causas há aumento também artificial no preço dos imóveis, sem que haja uma ocupação de moradores de baixa renda, que continuarão isolados nas periferias. Estes, ainda, provavelmente não se deslocarão por distâncias tão grandes até os centros para usufruir das atividades culturais "para todos", e possivelmente nem se interessarão pela característica da artes expostas. Se sabe que os maiores frequentadores da Pinacoteca de São Paulo, do MARGS em Porto Alegre, ou pessoas que tem a revitalização do patrimônio histórico da cidade como uma prioridade financeira não são os pobres da periferia, mas sim as elites das zonas centrais. Blogs e sites sobre movimentos sociais que lutam pela ocupação popular dos dos centros abandonados mostram claramente seu descontentamento com o caminho tomado pelos projetos de reurbanização de Porto Alegre, que não permitem uma gentrificação natural. Críticos da gentrificação, este processo de retomada das áreas antigas e abandonadas, dizem que ela "expulsa" os moradores pobres de suas casas com a valorização dos imóveis. Mas se eles possuem direito de propriedade e direito a negociar ou recusar as propostas de compra de seu imóvel não há expulsão mas apenas uma troca voluntária de interesses.

Mesmo com todos os problemas, fico otimista pelos Centros como espaço construído: com o tempo, deixarão de ser abandonados e voltarão a ter a vitalidade das gerações que passaram. No entanto, será um processo lento e distorcido, onde politicagem e falsos interesses serão manifestados, onde muitos serão injustiçados e onde as dores dos prejudicados ficarão escondidas sob as fachadas de uma cidade aparentemente renovada.

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Downtown: hated by many, loved by some, where many work and few live, where pollution, bad graffiti and illegal advertising hide a lost city. Why did we leave the center of our cities, and when are we going back?

In São Paulo, from 1970 to 2000, the main neighborhoods of the "Zona Central" lost nearly half their population, becoming a commercial area, abandoned at night lacking people to appropriate, or take care of, the public spaces. It is estimated that in the paulista Downtown, a region fully equiped with infrastructure, public services intense commerce during the day, there are more than 200 abandoned buildings in a 1,5mi radius.

This same negligence repeats itself in Brazil's largest metropolises: in Rio's Centro, 39 buildings are public hazards in risk of falling. In Porto Alegre, from old mansions on Av. Duque de Caxias or tall buildings at Praça XV, it's not hard to find derelict buildings at the Centro Histórico neighborhood. There are multiple causes of why people left these properties, that act upon themselves causing spatial abaondonement: fleeding rich residents, the inhabitants of Downtown's "romantic past" in search of quieter neihborhoods and bigger lawns (subsidized by auto-oriented infrastructure, anti-density and anti-mixed use regulations in selected zones); degradation of buildings with time, gradually increasing costs for maintenance and adaptation to new technologies; high rents for low wage earners; increase of crime levels (wallets and phones are regularly stolen). In case of Rio de Janeiro, one of the causes was by a "technical" decision, prohibiting residential use in most of the downtown area from 1974 to 1994.

But even with low prices, the building market acts cautiously and slowly to reinvest in the area. Why is it afraid?

At first one should notice that many of the abandoned buildings we find in these areas are state property, with no chances of receiving private investment. Instead of creating or expanding new agencies just as a reason to occupy them, one alternative for these buildings would be to openly auction them out, with the public sector receiving the largest sum possible to reinvest in society and, at the same time, incentivizing buyers to take responsible decisions with his new property. 

Next we see landmarked buildings, which are legally protected from alterations while considered a significant meaning for the city, state, country or even world. However, as I have already argued, landmarking buildings usually gives us bad results. Many buildings are abandoned because of the high maintenance costs demanded and legal restrictions for adaptation and retrofitting. Rules aim at saving history but end up creating opposite effects. One can even consider that some of these buildings are more public than private, as there are an astonishingly high number of restrictions on property.

Building taxes, the brazilian IPTU, which has also been covered in this blog, also ends up damaging downtowns. Just as landmarking, taxing buildings is also a policy that has great chances to surge opposite effects from what it was intended to, in this case avoiding lots from being abandoned. There are several buildings with millionaire tax debts attached to them, in most cases so high that the owners would lose everything if they had to pay them out, which also scares building companies from buying them as they would have to pay the debt in order to go ahead with a serious project. According to the website Edifícios Abandonados ("Abandoned Buildings"), a few examples in downtown São Paulo such as the Prestes Maia and the Mauá buildings have more than R$2 million payable. Today's rule of using eminent domain and paying the owners in public debt securities has worse outcomes as it puts the buildings fate in the hands of political groups, which many times leave the building abandoned or is misallocated as public decisions have little incentives to be effective.

At last, there are a few buildings which are already in the hands of private investors, which wait for the right moment to refurbish them. Yes, this is the so-called "speculation", viewed as "evil" or plainly misunderstood by most people, but which can be one of the most realistic options to occupy downtowns. The logic is simple: if these investors execute their projects too soon few buyers may appear, keeping the building empty while generating a huge economic loss. In the other hand, if they wait for too long the cost of the investment (money that could be earning interest in a bank account) grows and pressures the investor to go ahead with the project. He has, therefore, good incentives to identify what are the greatest demands and when is the perfect moment to act.

Despite being slow, this is the route that made São Paulo's Zona Central the region that grew the most in the last 10 years, reversing the scenario of the previous 30 years. Few are aware of this, but it gained in this period 63,000 new residents, an increase of 13%. Refurbishments are gradual, first by those attracted by low rents and proximity to work, and 60,000 sqm have already been transformed this way in the last few years, with a tendency that seems to continue. Porto Alegre has the same drive, which today reverses the emigration that last from 1980 to 2005, where the Centro Histórico lost a third of its population.

But investors still face other risks and costs to go ahead, usually generated by municipal planners: besides IPTU debts, there are still rules such as mandatory parking spaces for new buildings, FAR (Floor Area Ratio) limitations and endless approval stages to approve any given project, increasing investment risks and, therefore, floor prices. Landmarked buildings even have an "area of influence", restricting what is built around it, and as our downtowns are old they are filled with these areas of influence.

Public safety is also a variable uncontrolled by private investors, even less when issuing the subject of violent drug trade - an important challenge in the case of downtown São Paulo, as it is home of Cracolândia ("Crackland"). As urbanist Stephen Smith wrote, "the war on drugs is a war on cities", and the regulation of prohibited drugs, disconnecting them from criminal activity, should be seriously evaluated at national level.

But don't City Halls have a part in this re-occupation, as they are making large investments in huge projects and saving landmarked buildings? In Porto Alegre, the Monumenta program promises to invest R$21 million, the paulistano Procentro, R$184 million. But analyzing the situation as a whole one clearly sees a paradoxical attitude from politicians, creating difficulties in one end to show service in another. As in federal level projects, megaprojects undertaken and financed by the state get more votes, as voters "see where the money is going", instead of policies that gradually allow a natural development of a certain region. Still, companies participating in the state-driven goal, receiving special loans and political guarantees, end up market-risk-free, working only as an efficient executor of a public policy driven by political interests.


Se sabe que os maiores frequentadores da Pinacoteca de São Paulo, do MARGS em Porto Alegre, ou pessoas que tem a revitalização do patrimônio histórico da cidade como uma prioridade financeira não são os pobres da periferia, mas sim as elites das zonas centrais. 

Disregarding real market demands, these programs forget the alternative of merely reducing taxes and removing rules that nearly prohibit occupying downtowns and lead to an increase in building prices, allowing then independent citizens to choose their own future for Downtown consuming projects by NGOs and building companies in a responsible way. State programs to revive dead central areas, however much it may seem as a noble cause, use public funding to do so and, in practice, become a reverse redistribution program. Artificially directing funds to certain causes there is also an artificial increase in the prices of buildings, with no occupation by low-wage residents, who will remain isolated in the periferias, the cities' outer areas. Still, these people probably displace themselves dozens of miles to enjoy the cultural activities created "to all", and possibly won't even be interested in the art being exibited. It is known that the largest public inside São Paulo's Pinacoteca or Porto Alegre's MARGS, or people who have the revitilization of the heritage of a city as a financial priority aren't the poor in the periferias, but the central zone elites. Blogs and sites by social movements fighting for a popular occupation of abandoned downtowns clearly show their discontent with the path taken with Porto Alegre's reurbanization project, which don't allow for a natural gentrification. Critics of  gentrification, this process of retaking old abandoned areas, say that it "expells" poor dwellers from their homes with the increasing prices of their property. But if they have property rights and the right to negotiate or refuse buying proposals of their realty there isn't expulsion, just a voluntary exchange of interests.

Even with all problems involved, I'm optimistic for brazilian downtowns as a built environment: with time they will cease to be abandoned and will come back to having the vitality of past generations. Nevertheless, it will be a slow and distorted process, where political interests and fake demands will be manifested, where many will be wronged and where losers will be forgotten and hidden behind the facades of an apparently renovated city.